Por Dr. José Augusto Maciel Torres
O Krav Magá é uma arte marcial israelense para defesa pessoal, que começou a ser desenvolvida nos anos quarenta pelo célebre professor Imi Lichtenfield. Atualmente, a Escola BUKAN, dirigida pe
lo grão-mestre Yaron Lichtenstein, com sede em Israel e filiais em vários países (inclusive no Brasil), constitui o centro espiritual e profissional dessa arte.
ENTREVISTA
Fighter Magazine: Grão-mestre Yaron Lichtenstein, o Sr. era um dos dois primeiros alunos do fundador do Krav Magá, o Sr. Imi Lichtenfield. O que pode nos contar sobre isso?
Yaron Lichtenstein: Comecei a treinar e praticar Krav Magá com Imi no ano de 1967, aos quatorze anos de idade, em sua academia localizada em Tel-Aviv, e mais tarde também na segunda academia que abriu em Israel, na cidade de Natanya. Naquela época as artes marciais ainda não eram tão populares e divulgadas como são hoje, e nós éramos um grupo relativamente pequeno, com apenas dez praticantes. Foi este grupo que ajudou Imi a criar e desenvolver o Krav Magá.
FM: Como era a sua relação com Imi? Ela se estendeu também para fora do tatame?
YL: No tatame eu era seu aluno, mas fora dele eu era o seu “ajudante pessoal”, por exemplo – o Imi não tinha carro nem carteira de motorista, e eu o levava para todos os lugares para ministrar aulas e cursos. Às vezes viajávamos por alguns dias, apenas para ensinar Krav Magá. Eu aprendi com Imi tudo o que sei hoje, e para mim ele era muito mais do que apenas um professor de arte marcial, pois muitas vezes assumiu papel de pai.
FM: Em Israel, a lei obriga todos os jovens de 18 anos, homens e mulheres, a servirem nas forças armadas durante um período de três anos. Você também serviu?
YL: Sim, eu servi no exército, nos anos 1971-1974. Alguns dias antes do meu ingresso no serviço militar, Imi veio falar comigo e me ordenou – “Você vai ser um soldado na linha de combate, um guerreiro”, e foi assim que eu fiz, sem perguntas e sem hesitações.
Servi numa unidade de elite chamada “Sayeret Shaked”, que estava sob a responsabilidade direta do general Ariel Sharon, na época o chefe militar do Comando Sul do Exército Israelense e quem viria a ser o primeiro ministro do país. Os testes e exames físicos e mentais por que passei para conseguir fazer parte da unidade eram muito difíceis, e sem dúvida alguma os treinos com Imi foram essenciais para o meu sucesso.
FM: O Sr. passou por alguma experiência marcante durante este período?
YL: Diria que sim... No ano de 1973 ocorreu a Guerra do Yom-Kipur, na qual eu tomei parte lutando na fronteira sul entre Israel e Egito. Eu e mais alguns companheiros da minha unidade estávamos defendendo um posto avançado, considerado um ponto estratégico. Lutávamos contra o terceiro exército egípcio, que contava com cerca de dez mil homens. Conseguimos resistir durante três dias, até que todos os soldados da minha unidade foram mortos ou gravemente feridos, eu inclusive. Ao todo, entre balas e estilhaços de granadas e morteiros, fui ferido 13 vezes, na cabeça, nas mãos e nas pernas. Conseqüentemente, os egípcios foram capazes de me capturar, e eu tornei um prisioneiro de guerra.
Fighter Magazine: O que você poderia contar sobre o tempo que passou como prisioneiro de guerra?
YL: Os egípcios rapidamente entenderam que eu fazia parte de um grupamento especial, e resolveram tirar o máximo de informações de mim, utilizando diversos métodos como tortura, pancadas fortes em todo meu corpo; aplicavam golpes sobre meus ferimentos etc., mas não adiantou, pois eu não revelei nada, e provei que o espírito de um soldado israelense não se abate tão facilmente. Usando técnicas evasivas que aprendi com o Imi, consegui sobreviver e ao mesmo tempo manter a minha sanidade.
FM: O Sr. foi condecorado pelas suas ações?
YL: Ganhei condecoração de honra do congresso e do presidente israelenses, reservada para soldados que deram uma contribuição importante à sobrevivência do Estado de Israel.
FM: Para quem não conhece, o Sr. poderia explicar brevemente o que é o Krav Magá?
YL: Com prazer. Em primeiro lugar, o Krav-Magá é uma arte marcial, no seu sentido mais tradicional e clássico. Na verdade, o nome completo dado pelo Imi e registrado oficialmente em Israel é: “Krav Magá – Arte Marcial Israelense para Defesa Pessoal”.
Imi serviu durante 20 anos como instrutor-chefe de defesa pessoal no exército israelense. Entretanto, ele entendeu que não é o suficiente ensinar defesa pessoal ao aluno – é necessário dar algo a mais. Portanto, quando se aposentou das forças armadas, fundou duas academias e começou a construir o Krav Magá como arte marcial completa, de acordo com os códigos tradicionais – implementou o uso do kimono (Gi), sistema de faixas coloridas e o mais importante numa arte marcial – ele criou elementos espirituais que completam os aspectos físicos do Krav Magá. A sua percepção, entretanto, baseou-se na concepção israelense, que é bastante distinta da visão oriental presente nas outras artes marciais tradicionais, pois, ele se baseara na tradição de um povo que lutara por sua sobrevivência durante seis mil anos. Ademais, o Krav Magá, seguindo a vontade de Imi, é ensinado no mundo inteiro somente em h
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